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BLUE TRAVEL No. 52 | Dezembro 2007



TODOS OS TEXTOS © BLUE TRAVEL | KATYA DELIMBEUF

Quepos Parque Nacional Manuel Antonio

Na continuação da descoberta da costa do Pacífico da Costa Rica, chegamos agora a Quepos. Conhecido essencialmente por albergar o Parque Nacional Manuel António, pérola de fauna e flora, Quepos - terra dos índios Quepoa, que lhe deram o nome - não é o lugar mais bonito do país. Mas tem ‘ilhas’ surpreendentes de ‘design’ como o Hotel Gaia, boas praias, e é um bom sítio para descobrir melhor a cultura índigena.

Por Katya Delimbeuf / Fotos de António Gamito

Millenli estaca em frente a uma árvore e põe-se à escuta. Segura, saca do telescópio, foca e faz-nos sinal para olharmos. Na outra ponta da lente está uma preguiça bebé ao colo da mãe. A jovem guia pergunta-nos se queremos tirar uma fotografia. Sim, gostava muito, mas como, se não vejo rigorosamente nada a não ser densa folhagem? Millenli encaixa a lente da máquina digital ao telescópio e dispara. Aí está: mãe e filho em momento raro de ternura, registados na minha câmara e na minha colecção de imagens de animais na Costa Rica. A nossa guia naturalista acumula duas particularidades: é a única guia mulher do parque, e é a mais nova. Por isso é tão estimada entre os colegas, que a encaram como uma espécie de mascote. Millenli tem apenas 22 anos, mas é tão boa a perceber onde está o «howler monkey» (macaco bugio) cujo grito se ouve a kms, como a identificar, através de um restolhar de folhas, a localização daquela preguiça…

Desde que começámos a visita a Manuel António, o parque mais visitado da Costa Rica - em 2005, 215 567 pessoas vieram à reserva, apesar de ser a mais pequena, com 1625 hectares -, avistámos já algumas das espécies endémicas a esta floresta tropical primária, com mais de 100 anos. Aqui vivem 300 espécies de árvores e 350 espécies diferentes de animais. Destes, conseguimos ver preguiças, um bando de macacos ‘cariblanca’ que decidiu presentear-nos com uma exibição de malabarismos enquanto comíamos, ‘macacos titi’ (só existentes na Costa Rica), e guaxinins… Depois, há aqueles animais que não deve querer ver, como os caimãos e crocodilos que habitam o pequeno lago que se atravessa de barco, logo no início do ‘tour’.

Mas afinal porque é que o parque se chama «Manuel António»? «Ah… Essa é a pergunta de um milhão de dólares», responde Millenli, sorrindo. Na verdade, ninguém sabe donde surgiu essa personagem de nome tão português. Uns dizem que Manuel António era um homem solitário que vivia aqui, e que o parque foi nomeado em sua honra. Certo, certo, é que o Parque Nacional criado em 1972 é o maior atractivo de Quepos, trazendo todos os anos milhares de pessoas a estas bandas. Famoso pela sua riqueza natural, de fauna e flora, mas também pelas suas praias, as únicas na Costa Costa Rica com areia branca - «por causa da proximidade do coral», explicam-nos - a praia Manuel António é a única onde encontrará fundo transparente, ideal para o ‘snorkeling’ – e para mergulhos retemperadores, está bom de ver…

O ‘tour’ do parque propriamente dito dura 3 horas e meia, mas há vários caminhos (‘senderos’) que pode fazer: além do ‘sendero’ principal, há o ‘sendero la trampa’, onde uma armadilha indígena no mar é visível durante a maré baixa, o ‘sendero pereçoso’, onde se podem ver muitas preguiças (como o nome indica), e o ‘sendero catarata’, um ‘trekking’ que na estação das chuvas tem uma catarata no final. Venha de manhã, pois é a melhor altura para ver os animais, e passe aqui a tarde, até às 16h, quando o parque fecha, a gozar a privacidade das praias Espadilla Sul e Manuel António - ao invés de estar lá fora a disputar o areal em Espadilla Norte, que é praia pública. Não só estas praias no interior do parque são mais sossegadas, como são muito mais bonitas. Guarde o bilhete e saia só para almoçar, como nós fizemos.

À volta de Manuel António, há inúmeras bancas a vender de tudo um pouco, e restaurantes e bares com ‘happy hours’ em número suficiente para nos baralhar a escolha. Para nós, a oferta é até demasiada, pois quando vemos multidões… fugimos como Diabo da cruz. O Parque Nacional é o principal chamariz de Quepos, que no nosso entender não é um local particularmente bonito, tendo crescido ao longo de uma estrada principal, com hotéis e restaurantes de ambos os lados. Há, no entanto, surpreendentes ‘ilhas’ de bom gosto, como é o caso do Gaia, luxuoso hotel de ‘design’ de traço arrojado e qualidade visível ou, menos majestoso, o Makanda by the Sea, hotel de 11 ‘villas’ no meio de uma extensa propriedade de floresta verdejante, com acesso a uma praia privada. Não estranhe se achar que ambos os sítios têm alguma concentração de ‘gays’ – Quepos conquistou uma reputação de ‘gay-friendly’ pelo seu ambiente festivo. Há também, à volta de Quepos, uma série de praias que vale a pena conhecer. A saber: Espadilla, Puerto Escondido, Matapalo, Dominical, Hermosa, Uvita. Todas em direcção a sul (claro!). Pois bem, é para lá que vamos.

Banhos de praia e de cultura indígena
Os mais optimistas chamam «massagem costa-riquenha» à condução nas estradas do país. Não é nada de dramático, mas uma massagem «verdadeira» ao fim do dia, quando chegar, cairá que nem ginjas…Seguimos novamente rumo a sul, em direcção a Matapalos e Dominical. Matapalos é uma praia grande, pouco frequentada, com boas ondas para a prática de ‘surf’ e um enorme coqueiral por trás. Mais à frente, Dominical é muito popular entre os surfistas e bastante mais concorrida que Matapalos. Quatro km adiante encontra uma das minhas preferidas: Dominicalito, uma extensão de praia com densa vegetação dos lados, onde se pratica surf, há barcos de pesca, e muitos locais fazem piqueniques à sombra dos coqueiros. A partir de Dominical, a estrada de terra batida passa, como por milagre, a estrada «normal», asfaltada (estrada 34). Assim, é num instante que chegamos à Playa Hermosa, tão bonita quanto o nome indica, próxima da Baía das Baleias, onde os cetáceos se podem ver ao longo da costa. Finalmente, Uvita já faz parte do Parque Nacional Marinho das Baleias. É uma bela e grande extensão de areal, com floresta luxuriante por trás, e completamente deserta durante a semana. Vale a pena.

Se é uma daquelas pessoas que quando viaja está sempre à procura de algo genuíno para trazer, perceberá, ao viajar pela Costa Rica, que uma das poucas coisas verdadeiramente locais são as madeiras e as máscaras, que retratam demónios. Feitas à mão, pintadas ou deixadas na sua cor natural, são máscaras de traços fortes, onde sobram assimetrias e abundam cornos e dentes. Mas são genuinamente costa-riquenhas, ao contrário de outras máscaras indonésias que verá nas lojas. Esses demónios são ‘Diablitos’, máscaras criadas para assustar o inimigo, na altura dos colonizadores Espanhóis. Ainda hoje, a 3 e 4 de Fevereiro, no povoado indígena de Rey Curré, se realiza a «Festa de los Diablos», em que os locais colocam as suas máscaras e tornam-se «diablitos» numa luta contra um touro de madeira, que representa os Espanhóis. Bebe-se ‘chicha’, uma bebida fermentada à base de iuca (raíz da América Central), dança-se, há artesanato e fogo de artifício. Como Rey Curré, ainda subsistem alguns povoados onde vivem índios Boruca, que vendem artesanato. E não são muito longe do local onde estamos. Prontos para um pouco de cultura local, depois de tanta praia e hotel de luxo, seguimos para Rey Curre… à procura de um determinado artista.

O seu nome é Rafael Gonzalez. Era esse que estava escrito a lápis no verso de uma máscara que andámos a namorar numa loja em Dominical. Uma dica: quando quiser saber a que ponto a peça que está a comprar é original ou feita em série, procure por trás o nome, a assinatura do artista. O facto levou-nos a meter conversa com o dono da loja, perguntando quem era a pessoa que assinava aquelas máscaras de traços fortes, rudes mas belos. Foi ele que nos explicou que eram criação de um artista Boruca, residente em Rey Curré, a uns 50 km dali. Um olhar trocado com o António e estávamos a caminho. Duas horas mais tarde (que as distâncias aqui dependem do estado das estradas), chegamos ao povoado Boruca e à ‘loja’ onde Rafael Gonzalez trabalha a madeira.

É um homem humilde e sábio, de quem se gosta instintivamente, com 55 anos e oito filhos. Os olhos mareiam-se-lhe quando fala da mulher que Deus levou, sempre sem pousar o pedaço de madeira no qual trabalha, isto já há 16 anos. Usa 14 tipos diferentes de madeira, que corta sempre no quarto minguante e deixa envelhecer naturalmente, na cor original. É com orgulho que nos conta como ganhou um concurso em Espanha, com concorrentes de todo o mundo, ou nos fala do curso que fez, pago pelo Ministério da Cultura costa-riquenho. Aqui em Curré vivem 83 famílias indígenas, descendentes dos Boruca, que trabalham no artesanato ou nas plantações de banana, durante muito tempo a base da economia da Costa Rica. É o melhor sítio para trazer uma máscara autêntica, com o ‘autógrafo’ do artista, e sem ser a preço de ‘gringo’. Ali ao lado, pode ainda visitar as aldeias de Buenos Aires e Boruca – sempre toma um banho de cultura local. São os poucos vestígios que restam dos nativos costa-riquenhos, que na origem eram índios Chorotega, emigrados do México no século VII, à procura de novas terras (por isso «Chorotega» significa «os que partiram» ou «os que fugiram»).

Regressamos a Quepos ao fim do dia, saciados com este mergulho de cultura popular. Ao jantar, espera-nos um manjar dos deuses no Gaia, a «coqueluche» de ‘design’… O bar Âmbar, no 3º piso do hotel, é o melhor sítio para ver o pôr-do-sol. Mesmo que não vá lá jantar – que o hotel não é propriamente barato -, não deixe de lá ir tomar um ‘cocktail’ ao final da tarde. Verá que não se arrepende.

O simpático Edward Florian, chef do La Luna, restaurante do Gaia, apresenta-nos uma versão daquilo que faz melhor: «‘wrap’ de corvina e prosciutto, regado com molho de ‘beurre blanc au citron’, vegetais baby e iuca no forno»… Sim, sabe tão bem quanto soa. Também, não podia ser por menos: o costa-riquenho (apesar do nome) gosta de trabalhar a gastronomia do seu país, como gosta de cozinha internacional ou asiática - e aprendeu com os melhores. Estudou em Nova Iorque, trabalhou com o chef francês Daniel Bouloud, viveu em Paris e em Espanha, onde passou por restaurantes com 3 estrelas Michelin, e trabalhou com Martin Berasategui, no país Basco.

Ao ir buscar um ‘chef ‘do calibre de Edward Florian, percebe-se bem o grau de sofisticação e qualidade que o Gaia possui e quer oferecer. Edward voltou para a Costa Rica porque lhe agrada o facto de o hotel «aliar esta elegância a uma clientela que sabe o que quer e que conhece muito de gastronomia». Aliás, 60% dos que vêm ao restaurante estão hospedados no Gaia, mas o restante vem só para fazer o gosto ao palato. O Gaia tem apenas um ano de existência, mas já conquistou a chancela dos «Small Luxury Hotels of the World». Desenhado pelo proprietário, o venezuelano Boris Marchegiani, a arquitectura do hotel é marcada pelo bom gosto, ao estilo da Bauhaus. Dominam o branco e as linhas rectas, e escadas de incêndio exteriores percorrem os edifícios na diagonal, dando-lhe algo de londrino. Elegante e exclusivo, o Gaia tem apenas 17 quartos, onde abunda a luz e dominam a madeira escura e o branco. Por cima, imponentes terraços com camas de dossel ao ar livre permitem que se usufrua de um estrondoso pôr-do-sol.

Para nós, é tempo de seguir até à próxima - e última - etapa da nossa viagem: a remota Península de Osa, terra de floresta virgem, que nos ficou no coração como a parte mais bonita da Costa Rica, e cujos exemplos de eco-turismo nos merecem apenas elogios. Venha connosco…

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